01 de Outubro de 2018
Digital House

O poder da nova educação

Tudo está acelerado. As mudanças vêm em ondas, os conceitos sobrepõem-se e é difícil definir o que é temporário, modismo, do que é efetivamente novo e duradouro. Aprender e ensinar são algumas das atividades mais antigas da humanidade. O ato de educar remete à primeira infância, onde as estruturas mentais tomam forma e nos acompanham ao longo da vida como base, principalmente, para o trabalho.

Mas num sentido mais amplo, educar é socializar transmitindo os hábitos que capacitam o indivíduo a viver numa sociedade. E quando a sociedade muda, a educação tem que acompanhar esse fluxo sob o risco de estar preparando as pessoas para um mundo que já não fará mais sentido. Bem, isso está acontecendo hoje, agora mesmo. Pois se você está numa Universidade, certamente está exposto a conceitos atemporais, independente do curso. Mas, provavelmente, também terá de encarar conceitos que não serão mais relevantes no momento em que receber seu diploma. Pois é…

A cada nova mudança somos confrontados a compreender o que efetivamente constitui um novo padrão social. É com base nesse fenômeno que buscamos tudo o que precisamos no Google, ignoramos as filas do banco fazendo transações eletrônicas, chamamos o Uber, o iFood e assistimos ao Netflix, compartilhando nossas impressões nas redes sociais. Nesse cenário, profissões se renovam, deixam de existir e são criadas. Quantas listas com as mais novas profissões bombando te alcançaram essa semana por e-mail ou no feed do LinkedIn?

A Revolução Digital nos abriu a um universo de opções e novas necessidades, onde cada vez mais funções repetitivas são automatizadas pelas máquinas e a lógica atribuída aos algoritmos. Mas, há gente por trás desses bits e linhas de código. Gente que precisa pensar para criar, ter repertório e raciocínio crítico. Gente que precisa estudar e aprender para seguir impactando a sociedade. Gente como você lendo esse artigo.

E se você chegou até aqui, uma pequena consideração para prosseguirmos: pedagogia é o ensino de crianças e andragogia o ensino de adultos. Para discutirmos o poder da nova educação aqui, eu quero que foquemos na andragogia. Porque o ensino de crianças tem particularidades que não faz sentido desenvolvermos nesse raciocínio. Já para o ensino de adultos, eu tenho três ideias para compartilhar. E o porquê dessas ideias não estarem naquela famigerada lista do modismo? Eu te conto no fim do artigo.

Long life learning

Qual a sua profissão? Eis uma pergunta que, até alguns anos atrás, não exigia muita reflexão. Inúmeros sobrenomes remetem a atividades profissionais. Mas hoje é um pouco mais complicado. Eu teria que responder algo como: Publicitário e Designer Gráfico, especialista em Tecnologias na Aprendizagem, trabalhando com Educação, por exemplo.

Esse novo panorama tem dois combustíveis essenciais. Por um lado, o avanço tecnológico abre oportunidades em áreas pouco exploradas de profissões antigas ou cria profissões completamente novas. Advogados, médicos, engenheiros e outros profissionais de áreas clássicas, hoje trabalham de forma muito mais ágil e intensa com a inserção da tecnologia em suas atividades. Já os desenvolvedores de aplicativos e sistemas full stack, profissionais de marketing digital e cientistas de dados, por exemplo, transitam por ambientes novos, desempenhando tarefas que até bem pouco tempo atrás ninguém desempenhava.

Ao mesmo tempo que a tecnologia proporciona o avanço acelerado, é na característica dos novos profissionais que está o segundo combustível da mudança. Enquanto a geração X buscava estabilidade, a geração Y (ou millenials) busca experiências. Não faz sentido para os profissionais nascidos entre 1980 e 1995 trabalhar exclusivamente por dinheiro. Nós queremos ter propósitos. E se é assim, ficar classificado, encaixotado e rotulado em uma função é inadmissível.

Nesse cenário, o conceito de long life learning tomou força, propondo que o aprendizado perdura por toda a vida. O próprio ato de aprender coisas novas atrai àqueles ávidos por experiências e criam no mercado os profissionais “slashie”: aqueles que desempenham mais de uma função ou tem formação em áreas distintas, não classicamente complementares, mas que na hora da ação abrem um leque de possibilidades.

Quando os mais jovens da geração Z, nascidos entre 1995 e 2010 começam a engrossar o corpo de profissionais, tanto a tecnologia quanto a experiência se encontram. Os nativos digitais potencializam o que é ser híbrido e fluído no jogo das profissões e estão, sem sombra de dúvida, efervescendo o mercado. Afinal, se os bons profissionais trazem à tona o aprendizado contínuo e a atualização como algo natural, as empresas tem que ajustar seus radares e suas formas de contratar para valorizar as características que fazem esses profissionais serem diferenciados.

Pode-se dizer que hoje o profissional não procura mais emprego, ele é encontrado pela empresa. E isso só é possível num ambiente heterogêneo, em constante evolução.

Neuro-educação

Outro benefício do avanço da tecnologia é que somos, cada vez mais, conscientes da máquina humana. A Neuro-educação combina a neurociência, psicologia e educação para decifrar processos cognitivos e emocionais que originem melhores métodos de ensino. Ou seja, através da observação de como nosso cérebro funciona, hoje somos capazes de determinar com maior certeza quais métodos e práticas são mais eficientes ao aprendermos algo.

Aprender é emocionar. A neurociência traz, hoje, evidências de que o ato de aprender está intrinsecamente ligado a emoção. Os fluxos de evocação e consolidação da memória, bem como os fluxos de informação conectando novos dados a conhecimentos anteriormente consolidados, são influenciados de forma decisiva pela emoção.

O ato de aprender passa por envolver-se com aquele conteúdo, com o local, com o grupo e com a proposta de ensino. Por isso, hoje é cada vez mais interessante propormos ambientes de aprendizado que extrapolam a sala de aula, experiências práticas além da expositiva, colaboração e aplicação objetiva dos conteúdos aprendidos em forma de projetos. Todas essas intervenções visam propor uma relação do aluno com a escola e o currículo que o alcance emocionalmente.

Somos seres distintos e únicos em nossas particularidades, mas o nosso cérebro tem mecanismos universais e conhecê-los nos dá a base para lidar com as diferenças. Numa abordagem superficial, temos, por exemplo, três tipos de interação principais com o meio, nos classificando como pessoas auditivas, visuais ou sinestésicas (que envolve o cruzamento de sensações). Ao expor o aluno em sala de aula a um novo conteúdo, se o fizermos de maneira ampla em relação a oferta de apelos sensoriais, utilizando o diálogo, a palestra, o vídeo e o exercício prático, por exemplo, temos maior chance de êxito.

Agora, o grande salto da neurociência está na responsabilidade em testar e aferir os resultados, sem se deixar levar pela moda. É cult dizer que algo é neuro. Mas com essa postura, experimentos sérios são colocados lado-a-lado de ações puramente comerciais. Há ainda um abismo de conhecimento a ser superado, mas a compreensão do cérebro é e será cada vez mais, sem dúvida, uma ferramenta incrivelmente útil.

Learning Experience Design

Tendo em vista o que já aprendemos ao longo dessa nossa conversa, compreendendo que podemos mesclar a tecnologia, com a vontade de experimentar, com a necessidade de emocionar e diferentes formas de interagir, começamos a criar uma matriz.

Numa ponta, as respostas às necessidades humanas, sendo elas filosóficas e éticas. Noutra, a compreensão do aprendizado, da cognição e da neurociência. Por fim, o design como ferramenta de acesso ao indivíduo e interação com o meio. Unindo esses universos e todas as áreas que tocam, começamos a conceber o conceito de Learning Experience Design (ou LX Design).

A nova Educação encontrou no Design suporte para ampliar sua maneira de interagir com os alunos. Afinal, o bom Design extrapola a estética e volta-se a função que exerce como anteparo para interação. Utilizando recursos de design gráfico, games, interfaces, produtos e afins; a construção da trajetória de aprendizado começa a receber um grande número de suportes que farão com que a experiência seja altamente personalizável.

Característica forte do LX Design, a oportunidade de customizar a entrega de ensino é uma das coisas que mais me fascinam. Afinal, uma vez que sabemos que as pessoas são diferentes umas das outras e aprendem de maneiras diferentes ainda que respeitando inconscientemente os mesmos gatilhos mentais, podemos observar e aferir através dos dados de avaliações formativas como adaptar a entrega de conteúdo. Para mim, pensar na pessoas como foco da educação é uma forma de respeitar o indivíduo.

Conclusão

Eu disse que essas três propostas, ao meu ver, extrapolam o que pode ser puro modismo na nova Educação. E eu sinceramente creio nisso porque as três propostas trazem em seu DNA o que torna a nova Educação tão poderosa: o foco na pessoa, no aluno.

Durante muito tempo nos acostumamos a concorrer uns com os outros, precisando decorar para fazer uma prova que nos classificaria frente aos demais. Além de que a oferta de ensino era hierárquica, o professor detentor do conhecimento e os alunos, passivos no processo de aprendizagem.

Hoje o grande salto está se dando ao colocar o aluno no centro das atividades, compreendendo o que ele precisa, descobrindo como entregar algo que tenha mais sentido e propósito, de formas diferentes, garantindo que a experiência de aprendizagem seja personalizada e sempre observada, analisada e evoluída.



Cesar Michelin é Learning Experience & Graphic Designer, Consultor Pedagógico na Digital House Brasil. Entusiasta da Educação aliando design, tecnologia e foco nas pessoas.

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